E eu estava pronta. A imagem que refletia no espelho me mostrava a mulher mais linda da noite, do mundo inteiro à minha frente. Eu mesma. Eu estava sublime. Faltava-me apenas calçar as botas. O cabelo estava comportado, com a cor no tom certo, no lugar certo. O rosto era de uma boneca de porcelana. Branco com textura de pêssego. Os olhos azuis afundados por negros contornos e os lábios pintados pelo mais puro e vibrante vermelho. A blusa com base em corpete ajustava meu corpo, maleando cada contorno. O quadril, a cintura, o busto. Sutilmente acomodados sob aquele justo corpete. Seguia-se com o short colado sobre a meia-arrastão que valoriza cada curva das minhas pernas. Por fim, calçei as botas. Salto agulha, cano até o fim da panturrilha, quase nos joelhos, e saí de casa.Agora são cinco da manhã, e me encontro em uma cozinha desconhecida, preparando um chá de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Já que ler é um tanto improvável na minha situação. Tou num porre de misturas e exageros, que só lembro-me do início da festa, onde estava acompanhada de uma bela garota e um lindo homem. Conforme tomo o chá, parece que o mundo vai estagnando-se novamente. Além da chaleira ainda fervendo, pois esqueci-me de desligá-la, ouço barulho de água.
Bom, estou na casa do cara que estava comigo, pois é ele quem está no chuveiro tomando banho. O que me reflete no espelho, já não é a imagem inicial, da garota mais sublime, ou da mais bonita desse mundo, desta noite ou deste amanhecer. Há batom vermelho já não tão vibrante como antes, transposto além da minha boca, os contornos de meus olhos escorreram um bocado, e meu perfume já não é o original. Há pelo menos umas quatro misturas a mais.
Ele convida-me para tomar banho com ele. Não vejo alternativa melhor para o momento. Já que sozinha eu poderia me matar com um chuveiro mesmo. Ele era realmente um cara bacana. Não sei mais cedo, mas agora eu não estava afim de nada, a não ser atirar-me naquela cama e dormir. Ele emprestou-me uma camiseta sua, e fomos dormir. Pouco antes de pegar no sono, pus-me a pensar quem era aquele homem, o que eu estava fazendo com ele, o que eu fiz com ele mais cedo. No fim das contas, não cheguei ao final. Capotei.
Mais tarde na mesma manhã, acordo-me com ele observando-me enquanto dormia. Eu tinha a cara mais pesada que alguém poderia ter numa manhã da mais brava ressaca. E ele... ah, ele parecia um anjo, com seus olhos fixos em mim. A minha mente já estava me assustando. Não sabia se falava alguma coisa, ou apenas pensava no que ele estava pensando, por que me olhava daquele jeito...
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