domingo, 6 de junho de 2010

Sobre amor e libélulas

Um dia desses estava escorado na janela de um hotel qualquer quando uma libélula pousou a poucos centímetros do meu braço. Na hora, eu não sabia ao certo se aquilo era uma libélula, ou uma cigarra, ou um inseto gigante qualquer. Nunca soube, e os poucos segundos que perdi tentando classificar o bicho foram suficientes para que ele sumisse. Bateu asas e escafedeu-se entre as árvores.
Eu tenho uma ligação especial com libélulas. Foi correndo atrás de uma que eu me estabaquei no chão, fraturando uma costela, perfurando o baço e sofrendo uma hemorragia interna que por pouco não me matou. Tinha cinco anos e, desde então, convivo com uma cicatriz que me atravessa o abdome, lado a lado. Tudo que eu queria era vê-la de perto, justamente para me certificar se o bicho em questão era cigarra, libélula ou “seja-lá-o-que-fosse”.
Se a necessidade de classificar uma libélula me rendeu duas semanas de internação, imagino o que me aconteceria se eu ficasse tentando classificar meus sentimentos. Inclusive, me cansa ver por todo lado gente tentando diferenciar um sentimento do outro. Se é amor, amizade, namoro, rolo, beijo, ficada, passatempo… Não tenho a mínima idéia, e nem quero ter! São inúmeras as espécies de relacionamento e a tentativa de classificar a todo minuto algo que, ás vezes, é simplesmente inclassificável pode resultar em muito mais do que um baço perfurado.
Ás vezes, perdemos a noção de que cada minuto da nossa vida pode ser o derradeiro, de que cada ligação telefônica pode ser a última, bem como aquela pessoa, de quem você ainda não sabe se gosta, pode ser o seu último romance.

[Lucas Silveira]

boa noite

e eu sabia que naquele momento eu estava sendo cruel. eu estava sendo alguém tão cruel tanto - ou talvez até pior - quando aquela que estava em sua cama. eu sabia que estava despertando outra vez os desejos de quem eu não deveria; de alguém que naquele momento eu desejava. era tudo tão provocante. o sexo estava no ar. estampado em sua face como a tatuagem recém feita. ardente, avermelhada e sudorípara de emoção. tudo o que eu não planejava, era estar ali, nas escadas, em seu colo. enquanto sua parceira daquela noite banhava-se em seu apartamento. porém, não era o fato de ela estar lá que incomodava-me. era o fato disto ser tão não planejado. o que apenas tratava-se de despertar um desejo tão provocante e raivoso, agora era questão até que balançava o coração. meu pulso branquelo tinha as marcas de suas mãos que antes haviam me segurado. e agora, estava ali, abrigada em seu colo, protegendo-me do frio das escadas encimentadas ao mesmo tempo em que beijava e mordiscava seu pescoço. ele recusava-se a voltar ao seu apartamento. e para mim estava confortável ali. fisicamente.
-por que me queres agora?
-porque tu não me quer agora.
essas palavras não saiam da minha cabeça. e isso tornava tudo tão desconcertante e desconfortável. eu sabia que ele teria de subir e eu teria de descer. ele estava excitado e ela ainda estaria lá. isso me desconcertava. em seu ombro, meus olhos enchiam-se de lágrimas. ele me queria, ele me desejava. mas aquela noite ele não me teria. mas ele a teve. e ele a teria o quanto fosse preciso. eu o desejava ardente e intensamente. eu desejava sua força, eu desejava seu carinho e brutalidade; eu desejava sua boca, língua, dentes; eu desejava suas mãos apertando-me contra seu corpo e suas pernas enroscando-se nas minhas. foi a noite em que mais o desejei, a noite em que mais o tive. a noite que mais o neguei.
-não encoste em mim. - eu disse. e assim o fez. seus lábios permaneceram a distância de mim, enquanto eu os desejava tanto. mas eu não cederia aquela noite. não cederia para ele. não cederia para mim.
e minhas razões eram misturadas. prazer, orgulho, sentimento, razão, ódio, nojo, valorização, vontade, desejo, tentação, perigo, proibido, tesão, libido, excitação, tristeza, desapontamento, sadomasoquismo, masoquismo puro.
saí de seu colo e tive outra vez a frieza da escadaria. que contrariava qualquer outra coisa ali presente. nossos corpos, a tensão. era fogo puro. como se eu tivesse atirado um toco de cigarro em uma casa de madeira. nós éramos o fogo penetrando aquela madeira toda. estávamos lado a lado. talvez uma metáfora de como as coisas de fato deveriam ser. apenas lado a lado e nada mais. mãos inquietas por entre os joelhos. olhos que revezavam-se entre fitar-se uns aos outros e os próprios pés. mas o tempo não pára. para ninguém.
-tu precisa ir.
-é... preciso.
-olha pra mim.
deslizo meus lábios sobre os dele, subindo ao encontro da testa. inevitavelmente pela vontade descontrolada. e então, sim... o beijo na testa. claro que, isto significaria respeito, em condições normais... mas o que há entre nós?...
-boa noite.
-boa noite.
ele subiu, eu desci. sentei no sofá, agarrei-me a uma almofada e fiquei olhando para fora através da sacada, cuidando para vê-lo saindo com ela, levando-a para casa. o que eu esperava anciosamente que acontecesse.
"cheguei. eu gosto de ti e estou te desejando."
"te gosto, mas não esta noite."
ele sabe exatamente que só deixo ambiguidade no ar quando ela é verdadeiramente necessária. como era naquele momento. eu não o gostava naquele momento. pois ele me gostava. eu o desejava, mas o negava. pois ele fazia o contrário. e eu já havia falado sobre "te gosto" para ele. ele sabe que é diferente de "eu gosto de ti". coloquei o celular no silencioso e adormeci.