quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Revi-vendo. [Parte I]

Hoje resolvi tomar ar fresco no jardim. mas como não tenho jardim, contentei-me com um cantinho na parede da sacada. Sentei lá, avistando um crepúsculo de infinita beleza, e, apesar deste, apenas sentia falta da vista do outro apartamento em que morava. Era menos, mais baixo, com um monte de casas à frente, mas mesmo assim era muito aconchegante. A sacada era semelhante à uma caixinha de fósforos, mas ainda tenho na memória os pores-do-sol, que enxergava-se um pouco mais adiante da rua onde situava0me. Um pouco, apenas um pouco. O sol partia nos fios dos postes de luz da rua, seus raios dividiam-se, batendo no rosto. Após isso, ele ia deixando seu posto, escondendo-se atrás de casas e casas. Para quem sabe apreciar, uma cena espetacular. Lembro-me também das noites em quantias em que deitava-me no chão da sacada, em noites quentes ou pavorosamente (para quem não gosta, eu considero-me uma excessão) frias. Deitava-me lá, e curtia a vista que me era privilegiada. Não era uma vista esplendorosa, não quero iludir. Não dava para ver o céu em seu integral, mas volto a dizer, era muito aconchegante. Me acolheu muitas e muitas noites, amanheceres e entardeceres. Em dias frios, daqueles que embaçam os vidros, e fazem o queixo tremer, meu passatempo noturno era a solidão, entorpecida com cafeína.
Preparava o café, na temperatura e sabor adequados ao meu paladar, pegava meu velho cobertor de lã - que devo o ter desde muito criança, assim como minha mãe e minha avó -, que nunca me deixou na mão e sentava-me encostado na parede. Até hoje, não sei o que no céu faz-me sentir tão bem, tão nostálgico. Simplesmente, observar cada estrela, ou mesmo o movimento da lua, atrai-me tanto quanto pólos norte e sul, tratados fisicamente.
Me prendia lá não somente a noite inteira, mas perseguia as estrelas e a lua até o dia clarear, e todo aquele belo espetáculo esmaecer à uma coloração roxa-azulada de um novo dia. Enchia a chaleira com água e a colocava aquecer novamente. Enquanto esta aquecia a água, eu passava uma água na xícara do café e a deixava sobre o escorredor de água; pegava a cuia, a erva - tão verde quando uma grama bem cuidada - e o vira-mate, preparava o chimarrão e voltava para a sacada, com tempo para ver o sol nascer.
Dormir era o que menos me importava. Havia ainda as noites em que eu incluia o cigarro na minha "programação". Posso dizer que tornavam-se noites ardorosas e intensas. A quantidade de café que eu consumia dobrava, e a viagem em pensamentos era mais longa, rápida e intensa também. Não tenho dependência no cigarro, como uns dizem, é para "diversão". Esse tipo de intensidade sempre me atraiu.
Dentre muitas coisas que raramente costumo pensar, raramente mesmo, destaca-se relacionamentos, no que hoje pensei. Pensei por que dentro das memórias de uma sacada passada, há muito mais além de madrugadas fumadas e cafeínadas. Há lembranças também do que é feito, lembranças do que nunca ainda fora feito. E fora lembranças, há ainda pensamentos. Pensamentos de primeira, ou mesmo de quinta. Tolos ou bizarros, inteligentes ou mesmo inúteis. E quando eu falo relacionamentos, não generalizo isto como sexo, ou apenas relacionamentos amorosos, nem por pessoas que eu fico, ou seja lá o que for. Eu generalizo relacionamento como todos que fazem parte de alguma forma de um convívio comigo.
No que se refere a sentimentalismo, nesses últimos dois anos eu fui capaz de aprender o que significa, fazer bom uso, e descartar. Não sou mais capaz de ser muito sensato. Pelo fim do ano passado, pude passar por uma das experiências que mais me amadureceu nesses últimos anos.
[...]

1 comentários:

Jean's. 9 disse...

Olá, venho atraves da comunidade...
Belo texto... lembranças são sempre bem vindas, ainda mais quando nos deixam bem...
Frio, café, aconchego...

Belas palavras...