Já tinha anoitecido, e estava frio, muito frio, como de costume aqui no sul. Havia chovido poucos minutos antes de eu sair de casa. Por tais motivos as ruas encontravam-se desertas. Somente aquela brisa gelada do minuano seguia em frente e virava as esquinas. Mas apesar de tudo estar deserto, continuava a ser uma sexta-feira à noite, o que contradizia a solidão daquelas ruas tão frias. Mas, aaah! Fazia tanto tempo que eu não sentia-me tão bem quanto naquela noite. E hoje ainda posso dizer o mesmo. Desde aquela noite, não tive mais os mesmos sentimentos. Pequeninos detalhes que parecem tão insignificantes. Estavam desertas as ruas, e nas calçadas, refletiam-se as luzes de postes e lojas sobre as pedras molhadas pela chuva; assim como na calçada, isso repetia-se continuamente no asfalto, pelos semáforos. Refletiam-se constantemente, continuamente. Como se estivessem cumprindo seu trabalho apenas por obrigação, até a hora de descansar. Não passava carro nenhum, nem mesmo gente. Mas estava frio, e isso me satisfazia vorazmente. Ah, e como. Minha respiração findava-se em "fumacinha", o que é algo muito gostoso, pois indica que está frio mesmo, principalmente comparado ao calor interno do corpo. Iggy Pop no volume máximo pelos fones, o frio cortante e o cheiro de brilho labial misturado com o hálito de um bom café preto que eu havia tomado antes de sair de casa. As esquinas brilhavam e faziam essa cidade parecer algo melhor. Eram as luzes, o frio, o chão molhado e eu. Era a melhor solidão, a melhor noite. Bastava respirar profundamente que era possível sentir a maior paz, misturada com a maior sensação de liberdade e adrenalina. Era a felicidade plena. E eu sabia que estava bem. E para onde estava indo. E tudo era tão bom. Era todo mundo junto; eram os melhores amigos a se encontrar; era pura fidelidade, risos, carinhos, decisões; era confiança. E aquela noite toda, foi tão intensa. Que nunca deixarei nada para trás. Eu sabia muito bem o que aquele vento significava.

0 comentários:
Postar um comentário