
Já estava ficando preocupado com a idéia de que anoitecesse antes de eu encontrar Hassan quando ouvi vozes um pouco mais adiante. Cheguei a uma rua deserta e lamacenta, perpendicular ao fim da avenida que passava bem no meio do bazaar. Dobrei a esquina da ruela esburacada e fui seguindo o som das vozes. As minhas botas chapinhavam na lama a cada passo, e a minha respiração ia se transformando em nuvens brancas à minha frente.(...)
No final do beco sem saída, vi Hassan em uma pose desafiadora: punhos cerrados, pernas ligeiramente afastadas. Atrás dele, em cima de pilhas de entulho e lixo, estava a pipa azul. A minha chave para o coração de baba.
Impedindo Hassan de sair do beco, estavam três garotos, os mesmos daquela manhã lá na colina, no dia seguinte ao golpe de Estado de Daoud Khan, quando Hassan nos salvou com o estilingue. Wali estava parado de um lado, Kamal, do outro, e, no meio, Assef. Senti o corpo todo se contrair e alguma coisa gelada escorreu pelas minhas costas. Assef parecia relaxado, confiante. Estava girando o solo-inglês metálico nas mãos. Os dois outros, nervosos, trocavam constantemente o pé de apoio, olhando ora para Assef, ora para Hassan, como se houvessem acuado algum tipo de animal selvagem que só Assef fosse capaz de domar.
-Cadê o estulingue, hazara? - perguntou Assef sem parar de brincar com o soco-inglês. - O que foi mesmo que você disse? "Vão ter de chamar você de Assef, o caolho." É, foi isso sim. Assef o Caolho. Brilhante. Realmente brilhante. Mas, por outro lado, é fácil ser tão esperto quando se ter nas mãos uma arma carregada.
Percebi que ainda não tinha soltado o ar. Exalei bem devagarinho, sem fazer barulho. Estava me sentindo paralisado. Fiquei olhando enquanto eles se aproximavam do menino com quem eu tinha crescido, aquele menino cujo rosto com o lábio leporino era a minha lembrança mais remota.-Mas hoje é o seu dia de sorte, hazara - prosseguiu Assef. Estava de costas para mim, mas eu podia apostar que estava rindo. - Estou a fim de perdoar. O que acham disso rapazes?
-É muita generosidade sua - exclamou Kamal. - Principalmente depois de toda a grosseria que ele fez conosco daquela vez.Tentou falar no mesmo tom de deboche, mas a sua voz saiu um tanto trêmula. Foi entao que entendi tudo: na verdade não era Hassan que metia medo nele. Estava com medo porque não tinha a menor idéia do que Assef pretendia fazer.
Assef fez um gesto com a mão, como que encerrando a questão.
-Bakhshida. Está perdoado. Pronto. - E acrescendou, baixando a voz: - É claro que nada nesse mundo é assim, de graça. Pos isso meu perdão tem um preço bem razoável.
-É justo - disse Kamal.
-Nada e de graça - acrescentou Wali.
-Você é um hazara de sorte - disse Assef, dando um passo na direção de Hassan. - Porque, hoje, isso só vai lhe custar essa pipa azul. Um negócio bem justo, não é, rapazes?
-Mais que justo - respondeu Kamal.
Mesmo do lugar em que estava, pude ver o medo se instalando nos olhos de Hassan, mas ele abanou a cabeça.
-Amir agha ganhou o campeonato e corri atrás dessa pipa para ele. E consegui apanhá-la jogando limpo. Essa pipa é dele.
-Que hazara mais leal... Leal como um cachorro - disse Assef.
O riso de Kamal soou estridente, nervoso.
-Mas, antes de se sacrificar por Amir, pense nisso: será que ele faria a mesma coisa por você? Já se perguntou por que ele nunca inclui você nas brincadeiras quando tem visita? Por que só brincam juntos quando não tem ninguém mais por lá? Eu lhe digo o por quê, hazara. Porque, para ele, você não passa de um bichinho de estimação feioso. Alguma coisa para brincar quando ele está aorrecido; alguma coisa que pode chutar quando está zangado. Não tente se enganar, e lembre que você é mais que isso.
(...)
Havia um monte de lixo e sucata espalhado pelo beco. Pneus de bicicleta velhos, garrafas com os rótulos arrancados, revistas rasgadas, jornais amarelados, tudo jogado em meio a uma pilha de tijolos e placas de cimento. Um fogareiro de ferro enferrujado, com um enorme furo em um dos lados, estada apoiado no muro. Mas, no meio de todo aquele lixo, havia duas coisas de que eu não conseguia tirar os olhos. Uma delas era a pipa azul encostada no muro, perto do tal fogareiro enferrujado; a outra era a calça de veludo cotelê marrom de Hassan jogada sobre uma pilha de tijolos danificados.
(...)
Assef se ajoelhou por trás de Hassan, agarrou-o pelos quadris e erguei um pouco o seu traseiro. Continuou segurando com uma das mãos e, com a outra, abriu a fivela do próprio cinto. Baixou o fecho ecler da calça jeans. Fez o mesmo com a cueca. Se ajeitou atrás de Hassan. Este não lutou. Nem mesmo se lamentou. Virou a cabeça lentamente e pude ver seu rosto de relance. O que vi, ali, foi resignação. Era um olhar que eu já tinha visto antes. O olhar de um cordeiro.
(...)
Parei de olhar e me afastei do beco. Alguma coisa quente escorria pelo meu pulso. Olhei e me dei conta que ainda estava mordendo a mão. E com tanta força, que cheguei a tirar sangue das juntas. Percebi outra coisa também. Estava chorando. Lá da esquina, podia ouvir os grunhidos rápidos e ritmados de Assef.
Era a minha úiltima chance de tomar uma decisão. Uma última oportunidade para decidir quem eu ia ser. Poderia entrat no beco, ir defender Hassan - do mesmo jeito que ele me defendeu todas aquelas vezes no passado - e aceitar o que quer que viesse a acontecer comigo. Ou podia sair correndo.
E, afinal, saí correndo.
The Kite Runner
Khaled Hosseini