terça-feira, 22 de julho de 2008

Perdão


Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade.
Arthur Schopenhauer, em 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Acaso


O acaso é um poder maligno, no qual se deve confiar o menos possível. De todos os doadores, ele é o único que, ao dar, mostra ao mesmo tempo e com clareza que não temos direito nenhum aos seus bens, os quais devemos agradecer não ao nosso mérito, mas tão-só à sua bondade e graça, que nos permitem até nutrir a esperança alegre de receber, no futuro e com humildade, muitos outros bens imerecidos. Eis o acaso: mestre da arte régia de tornar claro o quanto, em oposição ao seu favor e à sua graça, todo o mérito é impotente e sem valor.
Arthur Schopenhauer, em 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Confiança II

Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar piamente numa ideia, mas não num homem. No mais alto grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o aroma da dúvida – uma sensação meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um ás escondido na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada – a sua traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é o de que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais – e de que ainda confiam demais em outros homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito que as mulheres sejam sabiamente menos sentimentais, tanto nisto como em outras coisas. Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age com se confiasse nele. A sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o apanhou poderá ser subornado.

Henry Mencken, em 'O Livro dos Insultos (1920)'

Confiança I

Ainda que a sinceridade e a confiança estejam relacionadas, são, no entanto, diferentes: a sinceridade consiste em abrir o coração e em mostrarmo-nos tal como somos por amor da verdade. Odeia o disfarce e quer reparar as suas faltas, mesmo que para isso seja preciso diminui-las pelo valor da confissão. Quanto à confiança, esta não nos concede o mesmo grau de liberdade, as suas regras são mais rigorosas, requer mais prudência e moderação. Ora, nem sempre estamos livres para obedecer a estes requisitos. Não somos só nós, no que a ela diz respeito, que estamos envolvidos, porque os nossos interesses misturam-se quase sempre com os dos outros. Requer uma enorme justeza para não levar os nossos amigos a entregarem-se, pelo facto de nós nos termos entregado, como para lhes oferecer um presente, com a única intenção de aumentar o preço do que nós damos.
Fica-se sempre satisfeito com o facto de os outros depositarem confiança em nós porque é um tributo que oferecemos ao nosso mérito, é um depósito que fazemos à nossa confiança, são, enfim, fianças que lhes dão algum direito sobre nós, isto é, aceitamos uma certa dependência à qual nos sujeitamos voluntariamente. Não, não é minha intenção destruir com as minhas palavras a confiança, que é tão importante entre os homens, uma vez que é o elo entre a sociedade e a amizade. (...) Damos a nossa confiança, a maior parte das vezes, por uma questão de vaidade, porque queremos falar, porque queremos conquistar a confiança dos outros, mas também para podermos trocar segredos. Há pessoas que terão razão em acreditar em nós e com as quais não teríamos boa razão de corresponder, mas ficamos quites quando guardamos os seus segredos e quando correspondemos com confidências superficiais. Há outras cuja sinceridade conhecemos, que não têm nada a ver connosco, mas em quem podemos confiar, seja por escolha ou por estima. A estas pessoas não devemos esconder nada do que nos é íntimo, devendo mostrar-lhes verdadeiramente as nossas boas e mesmo as nossas más qualidades, sem exagerarmos nas primeiras e sem diminuirmos as segundas.
La Rochefoucauld, em 'Reflexões'

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Solidão I


Sexta-feira. Um longo dia. Que finda-se agora. Cai a noite, é hora de voltar para casa. Um dia exaustivo, com muito trabalho. E uma noite inteira entregue à curtição.
Mas em casa está tudo escuro, não há ninguém à espera. Você está só. Nenhuma luz acesa, nem o barulho da televisão. Não há ninguém para lhe abrir a porta. Apenas o barulho daquela velha samambaia, esfregando-se na parede, com o balançar do vento.
E por fim, a última coisa que você gostaria de sentir, naquele momento, é a inevitável solidão.
E a parte mais irônica da solidão: é o estado em que você cria e encontra as suas mais absolutas fantasias. E é a partir dessas fantasias fluidas por esse estado, que surge a tristeza.
E, para mim, não é muito difícil imaginar alguém em absoluto estado de solidão, em plena sexta-feira.
Recordo-me vagamente, de um jovem garoto. Vinte e dois anos. Solitário, em um loft no centro de NY. Um garoto, que por ventura, teve a façanha de acometer a solidão à sua vida. Não havia mundo melhor que o seu quarto. Sozinho, sentado em metade da sua cama de casal, com seus livros, e IPhone.
Era suficiente que o fim de semana chegasse, para que pudesse programar um fim de semana solitário e feliz. Porém bastava assentar-se disto, que seus desejos e fantasias entravam em ação. Surgiam cenas, de dois lados. De um lado, aquele barzinho com os amigos, divertindo-se, com uma cervejinha, e com a mulher que amava, do lado. De outro lado, via-se, novamente, sozinho naquela sala. Sentado no sofá, olhando o ritmo da cidade lá fora. Desejando, ao mesmo tempo, não estar ali.
Veste-se. Um jeans, uma camiseta branca e tênis. Encontra-se com seus amigos na balada. E aí percebe, que as festas reais não são iguais às festas imaginadas.
Encontrava-se em um total desencontro. Era o que queria, e não era ao mesmo tempo. Seus desejos eram incapazes de possibilitar o compartilhamento das coisas da sua solidão.
Volta para casa, direciona-se à cozinha, abre a geladeira, pega uma garrafa de cerveja. Olha, para cima do balcão, aquele vinho francês, lá, há alguns meses. Esperando por algum momento feliz com uma mulher. Ao lado, as taças de cristais, decoradas com delicados desenhos em volta.
Segue com a cerveja, pega seu violão, e segue madrugada a fora naquele sofá, olhando pela janela, o movimento da cidade. Até adormecer.
Sábado. outro dia...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A beleza é mesmo tão fugaz



O que tanto buscamos na beleza? O que há entre beleza a personalidade?
São horas tratando de nossas aparências estéticas, frente a frente com o próprio reflexo no espelho.
Você já parou para pensar como, e em função do que, a estética hoje é um dos fatores que mais movimenta o mercado comercial?
Está em todo o lugar, você não tem como escapar. Nos meios de comunicação e publicidade; em estabelecimentos comerciais; na pessoa que acabou de passar por você. Está na sua cabeça. Para que você seja capaz de sentir-se atraente o suficiente para si mesmo, para ter auto estima. Está na sua preocupação, no fato de perguntar-se se você está bem vestido o suficiente para a ocasião, se seu cabelo está arrumado, sua barba aparada, seu corpo em forma, para o agrado do outro. Isso não é para você.
Você vive em constante busca por beleza, em você, no seu parceiro, no seu amigo. E isso dominou o mundo. Somos forçados a nos mantermos dentro dos padrões universais de beleza e moda. A pressão vem de todos os lados.
Mas... quanto vale isso para você? Quanto vale uma anorexia causada por bulimia? Quanto vale cada risco que você corre com plásticas intermináveis à procura de uma face sem marcas de expressão, um corpo magro, sem uma estria? Uma prótese de silicone para os seios; uma lipoaspiração? Claro, o dinheiro compra. Mas, quanto vale a sua vida, considerando cada possível risco que você corre a cada procedimento? Quanto vale a sua sanidade mental, sua saúde e consciencia?
Rugas: marcas de expressão que o tempo lhe concede, caracterizando-te como um ser humano real. Perfeito.
Mas o que está acontecendo com a nossa geração? São garotas jogando suas vidas no vão da rua, em busca do corpo perfeito, uma capa de revista, um contrato de 500 mil reais para desfiles de moda. Garotas que unem-se para ficarem anorexas. Se dão apoios para não comerem nada, durante o maior tempo que puderem. Se conseguirem uma semana, talvez tomem uma garrafa de água. Você pode imaginar o quão triste isso é? E doloroso? Tanto para as garotas, quanto amigos, e familiares? Já imaginou a pessoa que você mais ama, lutando dessa forma?
Tudo o que somos agora, essa juventude doentia por uma beleza efêmera, é fugaz demais para realmente valer à pena.
O fato de sempre acharmos 'imperfeições' à beça em nós mesmos, nos leva à procurarmos em quem nos rodeia, essas 'perfeições' que 'nos faltam', querendo assim, sentirmo-nos completos, nos quesitos emocional e estético.
Mas quanto vale toda essa estética? Até onde você iria?

domingo, 13 de julho de 2008

Consideração




Por que temos consideração por alguma coisa somente quando nos é conveniente? Por que somos serer incapazes de termos consideração em tempo integral?
Quando algo nos agrada, torna-se importante para nós, aí surge a consideração, pela palavra falada, pelo ato cometido. Mas e quando as palavras já não agradam e os atos já não nos surpreendem? Para onde vai a consideração por tudo o que é perdido no espaço, no tempo?
Não é justo usarmos a consideração como bolas de gude. Um simples jogo, onde palavras chocam-se, acometendo a possibilidade de escolha entre consideração e um buraco negro.
A consideração estrutura-se em momentos, que subitamente deram-nos prazer, ou conseqüentemente ainda nos dão, influenciando o valor que atribuimos à esses acontecimentos.
Através da consideração, é possível avaliar o grau de confiança e reciprocidade que vamos conquistando na proporção em que a vida nos acontece.
Consideração: sf. 1. Ação ou efeito de considerar. 2. Atenção e importância dada a algo ou alguém. 3. Estima, respeito. 4. Observação (sobre algo); reflexão.

sábado, 12 de julho de 2008

Superfluidade




Estava pensando, em como é tão mais fácil escondermo-nos sob coisas supérfluas na tentativa de ocultar algo e nos refugiarmos. Refugiamo-nos do medo enquanto podemos, ocultamos algumas verdades, e está tudo bem.
Temos medo de viver, viver intensamente. De perder tempo olhando o pôr ou o nascer do sol. Não temos tempo para um fim de semana no campo. Somos sucedidos demais na cidade para isto.
Também não precisamos dos outros, pois somos melhores. Possuímos mais capacidade, nossas idéias e pensamentos são melhores. Negamos e renegamos crescer, cada vez mais, a cada dia que passa.
Você já parou para pensar que homens, hoje considerados grandes homens por suas filosofias não são considerados assim à toa? Eles realmente sabiam o que estavam dizendo. E se falaram que você precisa das pessoas ao seu redor, não renegue esse antigo conselho.
Se não precisas dizer, jogue na valeta as coisas supérfulas e dolorosas que irias dizer, se não precisas fazer, não disperdiçe a lealdade que lhe foi confiada, se recebes um conselho, use-o. Quem lhe deu teve o trabalho de revirar o seu passado, procurando o erro cometido, e reciclando-o para que você não precise fazê-lo mais tarde e tentar vendê-lo para alguém. Você não irá querer vender essa nostalgia à alto custo.
Superfluidade: adj. 1.Relativo à superfície. 2. Pouco profundo. 3.Sem seriedade. 4.Pouco sólido (argumento).

Want your life?

Some diferences

Sala de Fumar



(...) Exceto por mim, é claro, baba moldou o mundo à sua volta do jeito que quis. O único problema é que o mundo, para ele, era pão, queijo, queijo. E precisava decidir o que era pão e o que era queijo. Não se pode amar algém assim sem ter medo dele também. E talvez até um pouco de ódio.
(...)
-Estou tentando falar com você de homem para homem. Será que ao meno uma vez na vida consegue dar conta disso?
-Consigo, baba jan - murmurei espantado, e não pela primeira vez, ao ver como ele podia me atingir com tão poucas palavras. Por um instante, tínhamos tido um momento maravilhoso. Não era sempre que meu pai conversava comigo, e menos ainda me sentava em seu colo. E fui um idiota em estragar tudo.
-Ótimo- disse baba, mas os seus olhos não demonstravam lá muita convicção. - Pouco importa o que diga esse mulá; existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente uma variação do roubo. Entende o que eu estou dizendo?
-Não, baba jan - respondi querendo desesperadamente entender. Não gostaria de desapont-alo de novo.
Baba soltou um suspiro de impaciência. O que também me atingiu, pois ele não era um homem impaciente. Lembrei de todas as noites em que chegou bem tarde, todas aquelas noites em que tive de jantar sozinho. Perguntava a ali onde baba estava, a que horas ia voltar para casa, embora soubesse que ele estava na obra, inspecionando isso, supervisionando aquilo. Não era algo que exigia paciência? Cheguei a odiar todas as crianças para quem ele estava construindo o orfanato; por vezes desejei que todas elas tivessem morrido junto com seus pais.
-Quando você mata um homem, está roubando uma vida - disse baba. - Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça, entende?
(...)
The Kite Runner
Khaled Hosseini

Falhas e Virtudes

Segundo Shakespeare, nossas falhas eternizam-se no bronze e nossas virtudes escrevemos na água.
Agora, o que encontra-se entre falhas e virtudes?
Ao termos uma virtudes e pôrmos-as em prática, falhamos. Isso sempre acontece. Se queremos ser leais, sempre haverá um erro, se queremos ser confiantes, estaremos sendo tolos, pois não há no que ou em quem realmente confiar. Se queremos continuar, as barreiras nos dizem que é impossível, se queremos desistir, estamos deixando de lado nossas virtudes. Se somos esperançosos, não temos consciência da realidade. Se somos realistas, somos pessimistas.
Já parou para pensar em que consistem suas virtudes?
Já se perguntou, se as falhas, somos nós? De testes e experiências de outros? De fato, não acredito que realmente estejamos sozinhos nesse universo, distintos entre seres humanos e animais. Acredito sim em extraterrestes.
Pouco me importa se é um pouco (digo, de fato realmente é bastante) alienado o que tá passando pela minha cabeça.
Mas você já pensou se não passamos de experiências de extraterrestres? Se somos essas experiências, somos falhas, sim.
Por que mais, estaríamos isolados no universo?
"Entre sol e mil estrelas, existe um planeta, que chamamos de Terra."
Por isso torça para que exista algo la fora, porque aqui nao tem nada que presta.
Não duvido de experiências já tidas com extraterrestres (tá legal, dependendo de QUEM teve essa experiência, eu duvido sim).
Não somos sozinhos, apenas isolados do resto do universo. Não temos condições para vivermos sozinhos, sem tecnologia fora daqui. Fomos muito bem planejados, para não destruir outros lugares. Seja quem for que está nos observando, com certeza é muito sábio por não chegar perto de nós. Destruímos tudo.
Destruímos nossos lares, nosso planeta. Pra que termos o resto do universo em nossas mãos? Se quer conseguimos nos relacionar em harmonia.

I'd made my choice



Revide e questione, pois, todas as possíveis escolhas na vida. A mutação está presente a cada fase, a cada esolha.
Seja errante e não acredite no desacertado. O errado não te convém, e não há de convir. Pode ser a escolha certa, você nunca saberá.
Me encontro entre o lado da desistência e o da persistência. Realmente? Não sei para qual vou. Tanta permanência nessa relação, se você quer saber, está me desgastando, mais e mais a cada dia que passa.
Não quero deixar-te só pelo caminho. Mas se tu nunca me quisestes contigo, agora, abandonar-te-ei, para seguires teu caminho. Talvez seja melhor, cada vida para um lado.
Já revidei essa escolha, agora não há mais tentativas. Não é que eu não goste mais de você, ou que, relativamente gostemos de alguém. O "sentimento" irá persistir enquanto as ações agradarem você.
Desculpa, suportei demais este tempo todo, com esperanças de que alguma coisa mudaria. Estou pegando de volta a vida que eu te entreguei. Ela acontece independentemente de você, ou seja, antes, durante e depois de você.
Apenas tenho de lhe agradecer por fazer-me crescer, e em alguns piores momentos, você ter estado ao meu lado. Não da maneira como eu sempre tentei estar ao seu, mas você fez sua parte, não vou renegar isto.
Mas não consigo suportar mais tantas palavras jogadas na valeta, e a corriqueira necessidade de uma amizade momentânea. Não há mais nada.
Vá com Deus.

Dançou

Uma alternativa que encontrei para fugir um pouco da mesmisse e da tristeza desses posts, foi procurar uma notícia suuper feliz para postar aqui. Pena que a gente se deprime cada vez mais com o que se vê:


























Só pra saber mesmo, o que leva alguém a
convidar eles para uma festa, ou para qualquer outra coisa? E mais. O que leva alguém a comparecer numa festa onde MC Serginho e Lacraia estariam presentes?
Se vai, é porque merece mesmo descer até o chão com a Lacraia.


Fonte: EGO

O preço que se paga



Já estava ficando preocupado com a idéia de que anoitecesse antes de eu encontrar Hassan quando ouvi vozes um pouco mais adiante. Cheguei a uma rua deserta e lamacenta, perpendicular ao fim da avenida que passava bem no meio do bazaar. Dobrei a esquina da ruela esburacada e fui seguindo o som das vozes. As minhas botas chapinhavam na lama a cada passo, e a minha respiração ia se transformando em nuvens brancas à minha frente.(...)
No final do beco sem saída, vi Hassan em uma pose desafiadora: punhos cerrados, pernas ligeiramente afastadas. Atrás dele, em cima de pilhas de entulho e lixo, estava a pipa azul. A minha chave para o coração de baba.
Impedindo Hassan de sair do beco, estavam três garotos, os mesmos daquela manhã lá na colina, no dia seguinte ao golpe de Estado de Daoud Khan, quando Hassan nos salvou com o estilingue. Wali estava parado de um lado, Kamal, do outro, e, no meio, Assef. Senti o corpo todo se contrair e alguma coisa gelada escorreu pelas minhas costas. Assef parecia relaxado, confiante. Estava girando o solo-inglês metálico nas mãos. Os dois outros, nervosos, trocavam constantemente o pé de apoio, olhando ora para Assef, ora para Hassan, como se houvessem acuado algum tipo de animal selvagem que só Assef fosse capaz de domar.
-Cadê o estulingue, hazara? - perguntou Assef sem parar de brincar com o soco-inglês. - O que foi mesmo que você disse? "Vão ter de chamar você de Assef, o caolho." É, foi isso sim. Assef o Caolho. Brilhante. Realmente brilhante. Mas, por outro lado, é fácil ser tão esperto quando se ter nas mãos uma arma carregada.
Percebi que ainda não tinha soltado o ar. Exalei bem devagarinho, sem fazer barulho. Estava me sentindo paralisado. Fiquei olhando enquanto eles se aproximavam do menino com quem eu tinha crescido, aquele menino cujo rosto com o lábio leporino era a minha lembrança mais remota.-Mas hoje é o seu dia de sorte, hazara - prosseguiu Assef. Estava de costas para mim, mas eu podia apostar que estava rindo. - Estou a fim de perdoar. O que acham disso rapazes?
-É muita generosidade sua - exclamou Kamal. - Principalmente depois de toda a grosseria que ele fez conosco daquela vez.Tentou falar no mesmo tom de deboche, mas a sua voz saiu um tanto trêmula. Foi entao que entendi tudo: na verdade não era Hassan que metia medo nele. Estava com medo porque não tinha a menor idéia do que Assef pretendia fazer.
Assef fez um gesto com a mão, como que encerrando a questão.
-Bakhshida. Está perdoado. Pronto. - E acrescendou, baixando a voz: - É claro que nada nesse mundo é assim, de graça. Pos isso meu perdão tem um preço bem razoável.
-É justo - disse Kamal.
-Nada e de graça - acrescentou Wali.
-Você é um hazara de sorte - disse Assef, dando um passo na direção de Hassan. - Porque, hoje, isso só vai lhe custar essa pipa azul. Um negócio bem justo, não é, rapazes?
-Mais que justo - respondeu Kamal.
Mesmo do lugar em que estava, pude ver o medo se instalando nos olhos de Hassan, mas ele abanou a cabeça.
-Amir agha ganhou o campeonato e corri atrás dessa pipa para ele. E consegui apanhá-la jogando limpo. Essa pipa é dele.
-Que hazara mais leal... Leal como um cachorro - disse Assef.
O riso de Kamal soou estridente, nervoso.
-Mas, antes de se sacrificar por Amir, pense nisso: será que ele faria a mesma coisa por você? Já se perguntou por que ele nunca inclui você nas brincadeiras quando tem visita? Por que só brincam juntos quando não tem ninguém mais por lá? Eu lhe digo o por quê, hazara. Porque, para ele, você não passa de um bichinho de estimação feioso. Alguma coisa para brincar quando ele está aorrecido; alguma coisa que pode chutar quando está zangado. Não tente se enganar, e lembre que você é mais que isso.
(...)
Havia um monte de lixo e sucata espalhado pelo beco. Pneus de bicicleta velhos, garrafas com os rótulos arrancados, revistas rasgadas, jornais amarelados, tudo jogado em meio a uma pilha de tijolos e placas de cimento. Um fogareiro de ferro enferrujado, com um enorme furo em um dos lados, estada apoiado no muro. Mas, no meio de todo aquele lixo, havia duas coisas de que eu não conseguia tirar os olhos. Uma delas era a pipa azul encostada no muro, perto do tal fogareiro enferrujado; a outra era a calça de veludo cotelê marrom de Hassan jogada sobre uma pilha de tijolos danificados.
(...)
Assef se ajoelhou por trás de Hassan, agarrou-o pelos quadris e erguei um pouco o seu traseiro. Continuou segurando com uma das mãos e, com a outra, abriu a fivela do próprio cinto. Baixou o fecho ecler da calça jeans. Fez o mesmo com a cueca. Se ajeitou atrás de Hassan. Este não lutou. Nem mesmo se lamentou. Virou a cabeça lentamente e pude ver seu rosto de relance. O que vi, ali, foi resignação. Era um olhar que eu já tinha visto antes. O olhar de um cordeiro.
(...)
Parei de olhar e me afastei do beco. Alguma coisa quente escorria pelo meu pulso. Olhei e me dei conta que ainda estava mordendo a mão. E com tanta força, que cheguei a tirar sangue das juntas. Percebi outra coisa também. Estava chorando. Lá da esquina, podia ouvir os grunhidos rápidos e ritmados de Assef.
Era a minha úiltima chance de tomar uma decisão. Uma última oportunidade para decidir quem eu ia ser. Poderia entrat no beco, ir defender Hassan - do mesmo jeito que ele me defendeu todas aquelas vezes no passado - e aceitar o que quer que viesse a acontecer comigo. Ou podia sair correndo.
E, afinal, saí correndo.
The Kite Runner
Khaled Hosseini

Insetos

-Estamos perdendo tempo. Não viu que a pipa está indo para o outro lado?
Hassan trincou uma amora.
-Está vindo para cá - respondeu. Eu mal podia respirar, e ele nem parecia cansado.
-Como pode saber? - perguntei.
-Eu sei.
-Como?
Ele se virou para mim. Algumas gotinhas de suor escorriam de sua cabeça raspada.
-Já menti para você, Amir agha?
De repente, resolvi implicar com ele.
-Sei lá - resopndi. - Já?
-Mil vezes comer cocô! - exclamou ele com ar indignado.
-De verdade? Você faria isso?
Ele me lançou um olhar desconcertado.
-Faria o quê?
-Comer cocô, se eu mandasse - respondi. Sabia que estava sendo cruel, como naquelas vezes em que debochava dele quando não conhecia uma palavra qualquer. Mas havia algo de fascinante, embora um jeito doentio, em implicar com Hassan. Era um pouco como brincar de torturar insetos. Só que, agora, ele era a formiga e eu é que estava segundando a lupa.
(...)
-Se você mandasse, faria, sim - disse ele afinal, olhando bem para o meu rosto. Baixei os olhos.
Foi aí que descobri como é difícil olhar diretamente nos olhos das pessoas como Hassan, essas pessoas que dizem sinceramente o que pensam.
-Mas fico imaginando... - acrescentou ele. - Será que algum dia você me mandaria fazer uma coisa dessas, Amir agha?
E, com isso, Hassan me propôs um pequeno teste. Se eu ia provocá-lo, desafiando sua lealdade, ele ia fazer o mesmo, pondo à prova a minha integridade.
Adoraria não ter começado aquela conversa. Dei um sorriso forçado.

The Kite Runner
Khaled Hosseini

Disparidade



É tão desinteressante querer enxergar de fato o que acontece ao nosso redor. Digo, ao menos com o tempo isso se torna tão desgastante.

Segunda-feira, passada, depois do almoço lá na minha avó, enquanto esperava os rápidos minutos pós-almoço pré-aula, sentei no sofá de sua sala, e sem querer derrubo uma folha de jornal que no braço do sofá se encontrava. Juntei-o, e fui ver sobre o que se tratava aquela folha. Lista de Obituário era o que dizia.

Agora, alguém me responde. De que serve-nos uma Lista de Obituário? Qual o interesse que alguém pode ter nisso? Já não basta ligarmos a televisão e termos de agüentar uma vida real em tudo o que ela nos oferece? As coisas não poderiam ser diferentes na televisão? Por que somos obrigados à saber que uma criança de seis anos é atirada de um prédio pelo próprio pai? (É, foi a notícia mais recente da qual tive notícias. Desisti da televisão).

E aliás, por que temos que ter opiniões iguais para obtermos um mínimo de dignidade vindo da sociedade? Eu não quero ser igual à vocês. Eu não quero pensar igual à vocês. E pouco me importa se isso não está me trazendo uma vida muito feliz. Eu sou diferente. Aliás, ser diferente não era normal? Não era isso que a televisão nos transmitia, até a época de Páginas da Vida, pelo menos? (Última novela que eu acompanhei, tirando América).

Por que eu não posso mostrar minha sinceridade pela minha vida, pelas coisas que eu não me interesso. Por mim, que o mundo se exploda. Tou nem aí se a UE ou o G7 ou G8, SEI LÁ, expulsar a Rússia do grupo, ou resolver falar algumas verdades, e a Rússia com seu poderoso poder bélico resolver explodir tudo. Eu tou nem aí pra política ou mesmo para geografia. Não quero nem saber de quem morreu, suicidou-se, roubou, foi roubado ou qualquer coisa. TÔ NEM AÍ, tá legal? E é isso. Eu não quero nem saber o que tá acontecendo no mundo. E qual o problema nisso? Qual o problema em não ter interesses no que todo mundo tem?

Qual é o problema em ser diferente de você? Se eu fosse igual, ou tentasse ser, você obviamente reclamaria: ''Igual a mim? Nem tirando xerox, rs".

Não vejo problema em não ter um bolinho na escola ou no trabalho. Em não ser o preferido dos pais, professores ou chefes. E nem mesmo em não ter parâmetros esculturais de modelos. Não vejo problema em não querer ser o melhor em alguma coisa, ou mesmo o predileto. Não vejo problema também em não ter preconceito. Então, por que o preconceito é aplicado nessas condições?

Não quero ficar com o cara mais bonito da minha escola ou trabalho, e também não quero passar uma noite com meu chefe ou professor. Não vejo problema em gostar de quem você realmente gosta. Aquela pessoa alternativa. Qual o problema de sermos alternativos?

De não sairmos com o cara ou a garota mais bonita, de tomarmos Tio Sam em vez de Coca Cola, de empinar uma pandorga (e usar algumas gírias idosas, por que não?) em vez de passar horas na Internet. Ou mesmo de deixarmos o preconceito de lado, ou deixarmos de nos importar com o que vão pensar, e assumirmos quem realmente somos?

Quem está aqui hoje, com esses velhos preconceitos... Vinte anos no máximo. Se a nossa geração não fosse diferente, por que teriam 3,4 milhões de gays, na Parada Gay em São Paulo?

Talvez ainda haja uma saída. Não tenho muita certeza de que cem ou duzentas pessoas possam se rebelar contra o resto do mundo e conseguir alguma coisa. Mas talvez valha a pena tentar. Se a diferença for capaz de fazer mesmo diferença.