sábado, 12 de julho de 2008

Insetos

-Estamos perdendo tempo. Não viu que a pipa está indo para o outro lado?
Hassan trincou uma amora.
-Está vindo para cá - respondeu. Eu mal podia respirar, e ele nem parecia cansado.
-Como pode saber? - perguntei.
-Eu sei.
-Como?
Ele se virou para mim. Algumas gotinhas de suor escorriam de sua cabeça raspada.
-Já menti para você, Amir agha?
De repente, resolvi implicar com ele.
-Sei lá - resopndi. - Já?
-Mil vezes comer cocô! - exclamou ele com ar indignado.
-De verdade? Você faria isso?
Ele me lançou um olhar desconcertado.
-Faria o quê?
-Comer cocô, se eu mandasse - respondi. Sabia que estava sendo cruel, como naquelas vezes em que debochava dele quando não conhecia uma palavra qualquer. Mas havia algo de fascinante, embora um jeito doentio, em implicar com Hassan. Era um pouco como brincar de torturar insetos. Só que, agora, ele era a formiga e eu é que estava segundando a lupa.
(...)
-Se você mandasse, faria, sim - disse ele afinal, olhando bem para o meu rosto. Baixei os olhos.
Foi aí que descobri como é difícil olhar diretamente nos olhos das pessoas como Hassan, essas pessoas que dizem sinceramente o que pensam.
-Mas fico imaginando... - acrescentou ele. - Será que algum dia você me mandaria fazer uma coisa dessas, Amir agha?
E, com isso, Hassan me propôs um pequeno teste. Se eu ia provocá-lo, desafiando sua lealdade, ele ia fazer o mesmo, pondo à prova a minha integridade.
Adoraria não ter começado aquela conversa. Dei um sorriso forçado.

The Kite Runner
Khaled Hosseini

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