
(...) Exceto por mim, é claro, baba moldou o mundo à sua volta do jeito que quis. O único problema é que o mundo, para ele, era pão, queijo, queijo. E precisava decidir o que era pão e o que era queijo. Não se pode amar algém assim sem ter medo dele também. E talvez até um pouco de ódio.
(...)
-Estou tentando falar com você de homem para homem. Será que ao meno uma vez na vida consegue dar conta disso?
-Consigo, baba jan - murmurei espantado, e não pela primeira vez, ao ver como ele podia me atingir com tão poucas palavras. Por um instante, tínhamos tido um momento maravilhoso. Não era sempre que meu pai conversava comigo, e menos ainda me sentava em seu colo. E fui um idiota em estragar tudo.
-Ótimo- disse baba, mas os seus olhos não demonstravam lá muita convicção. - Pouco importa o que diga esse mulá; existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente uma variação do roubo. Entende o que eu estou dizendo?
-Não, baba jan - respondi querendo desesperadamente entender. Não gostaria de desapont-alo de novo.
Baba soltou um suspiro de impaciência. O que também me atingiu, pois ele não era um homem impaciente. Lembrei de todas as noites em que chegou bem tarde, todas aquelas noites em que tive de jantar sozinho. Perguntava a ali onde baba estava, a que horas ia voltar para casa, embora soubesse que ele estava na obra, inspecionando isso, supervisionando aquilo. Não era algo que exigia paciência? Cheguei a odiar todas as crianças para quem ele estava construindo o orfanato; por vezes desejei que todas elas tivessem morrido junto com seus pais.
-Quando você mata um homem, está roubando uma vida - disse baba. - Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça, entende?
(...)
The Kite Runner
Khaled Hosseini

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