Tá, mas peraí. À que exatamente brindamos? Brindamos mais um ano que se foi, mais um ano que chegará, sem ao menos saber se estaremos vivos, ou mesmo, se estamos vivos. Eu não digo vivos fisicamente, da maneira que podemos morrer a qualquer instante de um ataque do coração ou mesmo atropelados por um caminhão. Eu digo mortos mentalmente. Durante muitos dias agimos como vegetais. Tudo bem que cada um viva como quiser, de acordo. Mas de que adianta vegetarmos durante o ano e depois brindarmos vida, saúde, felicidade? E, digo mais. Não aproveitamos nossas vidas, e não desfrutamos às pessoas. Aliás, muitas vezes sim, desfrutamos-as. Mas desfrutar a próprio benefício realmente é desfrutar alguém? Com tudo o que uma pessoa pode lhe oferecer, queremos apenas as partes que são visíveis aos olhos, e que de certa forma nos beneficiam.Brindamos, brindamos. Brindamos dia após dia em que desfrutamos de tal forma as pessoas, cada detalhe da vida que perdemos. Cada insulto que oferecemos, cada briga, cada discussão. Cada falta de paciência, cada saída de si. Cada enlouquecida que demos com quem vive com a gente. Brindamos as vezes que ofendemos, que deixamos de falar algo bom, que em vez de um sorriso, causamos uma amarga lágrima, que em vez de um abraço, derrubamos as pessoas no chão, que em vez que uma profunda gargalhada, humilhamos as pessoas. Brindamos cada dia que agimos assim durante o ano.
Brindamos a pessoa que deixamos de ser, brindamos o que nos tornamos. E brindamos a máscara que usamos para ficarmos frente a frente com os outros. Brindamos as brigas, as mentiras, as impulsões. Brindamos o desconforto causado, o silêncio instalado. Brindamos a mágoa, e não a reconsiliação. Brindamos os fracassos, as recaídas. Os desamores, o ódio, a loucura. Brindamos tudo o que corre por nossas veias, o fluído que o coração faz bombar.
Brindamos com nobres palavras, mascarando a real vida, as dificuldades, os problemas. Brindamos fingindo. Construindo em meras horas, um castelo de bolha de sabão, destrutível em pouquíssimo tempo, estourado apenas com o vento, ou o olhar para o ponteiro do relógio.
Até acredito que pra muitos, essas celebrações realmente sejam fantásticas. Onde todos se reúnem, e realmente celebram todo o amor. Por que aí, ele simplesmente existe. Não quero generalizar todos os casos. Mas assim como o amor existe nessas situações, a hipocrisia não deixa de estar presente também.
Se você parar alguns minutos, e nem que seja para olha fixo para algum lugar, e com a mente, ir desmascarando tudo o que há por trás de tudo isso, sobra apenas mais um dia.
Bolhas de sabão estão longe de serem eternas (POC, estouram).











