domingo, 30 de novembro de 2008

...Feliz ano novo!

Tá, mas peraí. À que exatamente brindamos? Brindamos mais um ano que se foi, mais um ano que chegará, sem ao menos saber se estaremos vivos, ou mesmo, se estamos vivos. Eu não digo vivos fisicamente, da maneira que podemos morrer a qualquer instante de um ataque do coração ou mesmo atropelados por um caminhão. Eu digo mortos mentalmente. Durante muitos dias agimos como vegetais. Tudo bem que cada um viva como quiser, de acordo. Mas de que adianta vegetarmos durante o ano e depois brindarmos vida, saúde, felicidade? E, digo mais. Não aproveitamos nossas vidas, e não desfrutamos às pessoas. Aliás, muitas vezes sim, desfrutamos-as. Mas desfrutar a próprio benefício realmente é desfrutar alguém? Com tudo o que uma pessoa pode lhe oferecer, queremos apenas as partes que são visíveis aos olhos, e que de certa forma nos beneficiam.
Brindamos, brindamos. Brindamos dia após dia em que desfrutamos de tal forma as pessoas, cada detalhe da vida que perdemos. Cada insulto que oferecemos, cada briga, cada discussão. Cada falta de paciência, cada saída de si. Cada enlouquecida que demos com quem vive com a gente. Brindamos as vezes que ofendemos, que deixamos de falar algo bom, que em vez de um sorriso, causamos uma amarga lágrima, que em vez de um abraço, derrubamos as pessoas no chão, que em vez que uma profunda gargalhada, humilhamos as pessoas. Brindamos cada dia que agimos assim durante o ano.
Brindamos a pessoa que deixamos de ser, brindamos o que nos tornamos. E brindamos a máscara que usamos para ficarmos frente a frente com os outros. Brindamos as brigas, as mentiras, as impulsões. Brindamos o desconforto causado, o silêncio instalado. Brindamos a mágoa, e não a reconsiliação. Brindamos os fracassos, as recaídas. Os desamores, o ódio, a loucura. Brindamos tudo o que corre por nossas veias, o fluído que o coração faz bombar.
Brindamos com nobres palavras, mascarando a real vida, as dificuldades, os problemas. Brindamos fingindo. Construindo em meras horas, um castelo de bolha de sabão, destrutível em pouquíssimo tempo, estourado apenas com o vento, ou o olhar para o ponteiro do relógio.
Até acredito que pra muitos, essas celebrações realmente sejam fantásticas. Onde todos se reúnem, e realmente celebram todo o amor. Por que aí, ele simplesmente existe. Não quero generalizar todos os casos. Mas assim como o amor existe nessas situações, a hipocrisia não deixa de estar presente também.
Se você parar alguns minutos, e nem que seja para olha fixo para algum lugar, e com a mente, ir desmascarando tudo o que há por trás de tudo isso, sobra apenas mais um dia.
Bolhas de sabão estão longe de serem eternas (POC, estouram).

Adeus ano velho...

Bom, e mais um ano chegando ao fim, encaminhando-se à reta final. Dessa vez, em off. Sem nenhuma história em mente, e nem menos alguma coisa realmente legal pra falar. Apenas precisava escrever alguma coisa. Não importa o quê, apenas escrever.
Mais uma vez nos reunimos no que chamamos de ''família'' (sim, entre aspas, porque, nem pra todo mundo, o que temos e convivemos, ou o que se junta nas festividades é família). Aliás, nem sei se considero que tenho uma família. Enfim, isso não convém.
Então, quando essa época do ano chega, tenho que participar dessas festas. Na real, de verdade mesmo, festas não me interessam muito. Menos ainda essas festividades de fim de ano. Maior chatisse ficar seguindo tradições de família ou mesmo religiosas. Se é por que é feriado, uma data especial, e pra fazer algo fora do comum, pra quê tornar as coisas em coisas comuns, que serão repetidas todo dito ano? Por quê então, não resolvemos sair do comum a cada ano, fazendo alguma coisa que nunca fizemos? Acumularíamos experiências, novas. Boas, ou mesmo ruins. Me sentiria bem fazendo isso. Saindo da rotina e saindo do padrão. A cada ano. Me sentiria feliz. Uma espécie de realização.
Mas não, em vez de realizar-me, tenho que seguir esses padrões, essas instruções. - Então, pra deixar claro, as coisas aqui em casa são diferentes no quesito família. Digamos que ela é desmantelada. Com pessoas hum, como se diz hoje em dia? Ah sim, quadradas. Enfim. - Reunimo-nos e comemoramos. Comemoramos o nascimento de alguém que muitas vezes, pouco conhecemos, ou mesmo sequer acreditamos; comemoramos mais um ano que se foi, e que sequer foi um ano bom, ou mesmo um ano por nós valorizado. Mas no fim, levantamos as taças, cheias de champagne, e brindamos. Brindamos como se aquele tivesse sido o baita ano de conquistas, de sucesso, de amor e união. E desejando muito mais desses valores ao próximo ano, mesmo esses valores não sendo nem um pouco concretos à nós, pois não os praticamos, não fizemos eles existirem. E tudo isso, desejando ter um mínimo de paciência pra suportar essas memas pessoas, que estão aí contigo, taça à taça, fazendo desejos, com aquele enorme sorriso na cara, fazendo jus à hipocrisia social.

Continua (...)

sábado, 29 de novembro de 2008

Solidão II

A solidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar só consigo mesmo; segundo, a de não estar com os outros. Esta última será altamente apreciada se pensarmos em quanta coerção, quantos estragos e até mesmo quanto perigo toda a convivência social traz consigo. -Todo o nosso mal provém de não podermos estar a sós-, diz La Bruyère. A sociabilidade é uma das inclinações mais perigosas e perversas, pois põe-nos em contacto com seres cuja maioria é moralmente ruim e intelectualmente obtusa ou invertida. O insociável é alguém que não precisa deles. Desse modo, ter em si mesmo o bastante para não precisar da sociedade já é uma grande felicidade, porque quase todo o sofrimento provém justamente da sociedade, e a tranquilidade espiritual, que, depois da saúde, constitui o elemento mais essencial da nossa felicidade, é ameaçada por ela e, portanto, não pode subsistir sem uma dose significativa de solidão. Os filósofos cínicos renunciavam a toda a posse para usufruir a felicidade conferida pela tranquilidade intelectual. Quem renunciar à sociedade com a mesma intenção terá escolhido o mais sábio dos caminhos.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Vale [Parte III]


O convite deveria estar estocado ali naquela caixa de correspondência há algumas semanas, assim como eu no apartamento. É engraçado quando você pára pra pensar em como a vida é gozada. E como ela parece simplesmente seguir em frente para algumas pessoas, da maneira mais simples possível, enquanto a única coisa que tu quer é ir levando tua vida, e nem isso tu não é capaz, sabe lá o por quê.
Conhecemos o cara na última viagem pra serra. Sim, conhecemos, no plural. Foi uma viagem que fizemos, eu e o pai daquela minha amiga lembra-te? Resolvemos passar um fim de semana na serra, e nos instalamos em umas cabanas. Uma das melhores viagens que já fiz. Aquele frio todo, de arrepiar o couro, e se bobear, rachar a pele. Na verdade, o frio me sustenta, e faz com que eu me sinta bem. Na verdade, o frio até torna tudo mais excitante para mim. Foi a viagem mais romântica e alternativa ao mesmo tempo. A cabana era rústica, toda feita em madeira. Não muito grande, mas essencial, e completamente aconchegante. Com uma lareira na sala, em baixo da televisão de plasma fixada na parede, toda construída de pedra, dando o toque mais rústico e campestre por lá. E nada mais gostoso do que chegar da rua, toda branquinha, coberta pela geada, e pela serração, e deitar-se no pelego frente à lareira. Nada melhor do que fazer isso com ele. Mas como tudo tem um fim, pus um fim em toda essa relação também.
Mas, voltando ao assunto, conhecemos o noivo lá, em um barzinho, numa sexta à noite. Como de costume, estava muito frio, e em vez de um bom vinho, ou um caloroso café, estávamos tomando chopp. Chopp. Ao que chega um casal de namorados querendo companhia para jogar conversa fora e se divertirem um pouco, aproveitando a ocasião para que tirássemos algumas fotos. A começo, era tudo muito recente para eles também, conheciam-se há seis meses e estavam juntos há dois. Óbvio que ninguém imaginou que após um ano e nove meses eles iriam estar casando-se.
Havia algum tempo que não tínhamos mais contato, muito além do tempo em que criei uma base de concentração em 'meu mundo'. Como fazia algum tempo que nada fazia, tomei por decisão de confirmar minha presença no evento.
Pra ser sincera, festas não são o meu forte, não é algo que realmente me excita, me anima ou me deixa feliz. Especialmente eventos como casamentos, festas de aniversário, etc. Mas, achei que poderia ser um bom atrativo para mim, sendo que veria velhos amigos, conheceria novas pessoas, talvez até rolasse algo com alguém, afinal, não tive contato (além de não ter contato visual, vocal, também não tive contato físico) com nenhum outro ser humano nas últimas seis semanas.
O que eu realmente não lembrei, é que isso poderia ser usado contra mim, como um bom pretexto para um reencontro com o único homem do mundo que eu não precisava rever. E eu não tive como evitar de ir ao encontro daquele homem com quem eu havia tido as minhas melhores experiências, o homem que sabia os momentos certos para tudo.
Resolvi que a hora era, de mandar tudo pro espaço. Desde as preocupações, o preconceito, colocar em jogo uma das melhores amizades que eu tinha. Agir com "egoísmo", e matar meus desejos.
E, como ele sabia os momentos certos para tudo, sabia mais do que isso, sabia também a maneira certa de fazer as coisas ficarem bem.
E quando ele me abraça, formalmente, com aquele abraço de reencontro, de saudade, de amor e de desejo, é como se tudo o que não estava certo antes, tudo o que não estava bem, e faltava, se acertasse, ficasse bem e se completasse. E discretamente - em vez de um beijo na bochecha, faz uso do artifício da provocação, com seu perfume de presente de aniversário, por mim, dado, já que sabe que enlouqueço com aquele cheiro - ataca-me pelo pescoço, através de uma mordida - daquelas inesperadas, que te arrepia até a alma -, feito um vampiresco.
Assistimos à cerimônia, cada um para seu lado, por méritos de educação e consideração ao casal, desviando olhares, evitando qualquer tipo de contato. Em uma dança, é pela cintura que me leva ao seu embalo, em um beijo terno, cessando nossa presença naquele local.
O resto, foi o resto, naquela noite.
Mas, é inevitável meu bem, não sentir tua presença, não sentir teu toque, tua pele, teu sexo. Inevitável meu bem, não sentir tuas palavras sussurando aos meus ouvidos, teus esbaforidos, e mesmo tua irritação. Inevitável não sentir tua presença, teu amor. E não fazer parte de todo o intenso calor. Inevitável não te deixar nunca, não te querer. Aos teus braços, no sufoco, na necessidade, não correr.
Ah, é inevitável.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Vale [Parte II]

Já fazem seis semanas desde que tudo terminou. E que deste apartamento eu não saio e não tenho contato algum com o mundo lá fora. O chip do meu celular dei para o gato. Deve ter comido. O telefone, como de costume de quando não quero atendê-lo, tiro da tomada. Pode tocar a vontade, eu deixo. A secretária eletrônica - esquece, eu nem tenho uma - ...
Não há mais comida aqui em casa. os armários e a geladeira estão vazios. Ainda há cigarros. Apenas cigarros. Não há mais bebidas. Não há mais sentimentos. Qualquer falta ou desejo, é um cigarro. Não como nada há uns três dias. Mas estou bem. Só tenho um pouco de sono. Na verdade acho que perdi alguns quilos. Aquela barriguinha não existe mais. Preciso pintar meu cabelo. Na verdade, preciso de uma vida novamente.
Junto todo o lixo jogado no apartamento, guardo as roupas jogadas pelo apartamento todo. Abro as janelas, tomo um banho e coloco uma roupa nova. Ligo para o salão de beleza, escovo os dentes e coloco em algumas caixas de sapatos os maços de WS que sobraram.
Comprei um chip de celular novo, e liguei para a companhia telefônica pedindo uma nova linha fixa. Saí de casa. As coisas continuam as mesmas, Compro comida para o gato, e alimento-o. Afinal, as coisas lá por casa estavam na igualdade. Se eu não comia, o pobre bixo também não. Enfim, aquele gato só não fumou também porque o aquela merda devia dar-lhe enjôos.
Após umas compras, chego em casa e abro a caixa de correspondências. No meio de jornais, revistas, contas e propagandas, há um grande e belo envelope dourado e branco. O convite de casamento de um conhecido.

Vale

Chego na casa de minha amiga para depois sairmos. Ela ainda não está pronta, vai tomar banho. Fiquei na sala, assistindo tv, apesar de sua insistência para que eu entrasse no banheiro junto para ficarmos conversando. Não vejo problema nisso, conversamos muitas vezes no banheiro, enquanto a outra toma banho. Apenas, dessa vez, preferi ficar na sala, assistindo à alguns clipes musicais na televisão.
Seu pai chega na sala, e senta-se ao meu lado. Damos algumas risadas, como de costume. Admito que sempre tive atração por ele, mas sempre foi só atração. Hoje seu perfume dominava cada célula de mim e minha noção. O silêncio soou alto, e quando viro a cabeça, ele está olhando. Olhando com o desejo. Seus olhos castanhos delirantes sobre mim. Não sei muito bem como devo reagir. Retribuo o olhar e volto o olhar somente à televisão. Atrevo-me olhar de canto e um beijo vem ao meu entrontro. O risco que eu estou correndo é imperdoável. Sim, ele é divorciado. Mas essa não é a diferença.
Levamos adiante durante algum tempo. Quanto mais nos temos, mais avançamos, mais nos queremos, sem escondermos tais desejos.
Quando perco o controle é preciso revidar. Estou aqui, em sua casa, em sua cama, noite após noite, a cada noite. Minha amiga, a quem posso talvez dizer que estou traindo, está em seu primeiro mês de intercâmbio, na Holanda.
Tudo tá tão intenso, a libido incontrolável. E não dá mais pra esconder tal relação, não há mais saídas. Falo, cesso. Visto-me, pego a bolsa e saio.
Estou revidando o desejo e o prazer.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Interrompida

Há aqueles dias em que a cabeça parece tão cheia, tanta coisa para liberar, tanta coisa pra falar, e aquela vontade de relaxar. Apenas isso. E quanto mais quer libertar tudo que há em tua cabeça, mais tudo refugia-se de ti.
Talvez este momento já tenha passado. Então, peço-te que entre, e sente-te no sofá como antigamente.
Muito tempo passou, muita coisa aconteceu. Mas nada mudou, entre nós, desde que tu te fostes. Sim, pode ficar à vontade, se quiser, deite, te estique. Sabe que pode sentir-se em casa. Espero que não te incomode se eu acender um cigarro.
Agora que tudo se acalmou, acho que pode ser hora de uma reconciliação e reorganização dos sentimentos. Tudo está voltando ao seu devido lugar. A rotina findou-se, e talvez agora eu seja capaz de conciliar alguma coisa entre nós. Ai, Deus, como eu era uma pessoa incapaz. Por que eu me tornei alguém tão incapaz de amar-te como tu me amavas? Eu joguei todo teu amor ali às margens de um bueiro. Desculpa, eu não estava pronta pra ti, para sentir o que tu sentias, e retribuir-te toda aquela sensação que tu me causava. Foi a melhor que eu já senti em toda a minha vida.
Mas hoje eu compreendo quanto sentimento tu guardou, e incrivelmente tu reservou-o pra mais tarde. Como sabias que seria útil mais tarde? Não vou apelar para a modéstia agora, não preciso dela. Sei que se tu tá aqui, à minha frente, nesse sofá, tu não veio em vão. Sei que tu tá aqui por que me quer, por que ainda há o desejo fulminante por trás desses teus olhos castanhos e por baixo da tua pele branquinha, arrepiada pelo frio. O velho moletom já atirou sobre o braço do sofá.
Eu gostava de sentir o que eu sentia. Resolvi parar de querer sentir porque ainda não era tão intenso, como eu gostaria que fosse. E eu não podia agir assim com você. Eu sabia que o tempo tornaria as coisas intensas, como elas eram no início. Todo aquele desejo, a libido no ar. A vontade e a saudade. Era amor, e não era confusão de amizade.
O que eu mais gostava, era poder olhar dentro dos teus profundos olhos castanhos-mel, e não precisar falar nada, por que tu arrancava as palavras dos meus olhos. Eu sentia todo o conforto e segurança do mundo ao teu lado, no teu abraço mais acalentoso. E todas as nossas pequenas brincadeiras, nossos carinhos, nossos amores. No início era tudo tão intenso, as despedidas, os reencontros. Ou mesmo nas vezes em que a gente acampava. Aliás amor, lembra do nosso primeiro acampamento? Nossa primeira experiência em solo natural, em contato com a natureza, discutindo pra armar a barrcaca, as confusões no meio da noite.
Adorava também o seu jeito de dormir, e o jeito como tu me acordava pelas manhãs em que dormíamos juntos, e depois ainda ia pra cozinha fazer um café.
Pouca coisa mudou, mas creio que hoje consigo ter um pouco mais de amargura dentro de mim. Mas ao certo, sei que estou pronta para capacitar todo o amor por ti. Tenho vivido um pouco mais ultimamente, em todos os sentidos.
E agora, o jeito em que tu me olha enquanto me abraças, e eu sinto tuas lágrimas chegando aos meus dedos, estendidos ao teu rosto.
Enfim, novamente, na cama, os velhos amantes de sempre.
Mas meu bem, meus olhos vermelhos não negam o que foi passado. O conforto e o calor do teu corpo é o que me agrada, o que me intensifica. E é corpo a corpo que estaremos de hoje em diante, como éramos antes.
A velha história clichê de tudo o que acontece no passado que não se esquece. Mas tu, velho amigo, sempre será o que és pra mim. Velho amigo, velhos amantes.
A cada segundo mais confortante e delirante, um segundo a menos contigo. Apenas vista tua roupa, junte teu moletom lá na sala. Me olha uma última vez, pega tuas chaves, e te vá.
A perdição e o delírio tomarão conta de nós. Até a próxima.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

And so it is. [Parte II: Desabafo]

(...) Enrolo-me na toalha e atendo aquela porcaria. É apenas aquela "velha amiga" que lembrou de sua existência após muito tempo, devido à necessidade. Largou o namorado, voltou a passar por crises e dificuldades. Mas há anos ela já não lembra de você, se você está bem ou precisa de algo. Não te cumprimenta na rua, mas te agradece por você ter sido uma amiga tão boa por tanto tempo. Como de costume, ouviria teu desabafo, Fulana, mas dessa vez, não. Não, porque não dá mais. A propósito, nem nos conhecemos [mais]. Não tenho a obrigação de fazer com que tu te sintas bem mais uma vez, mas ainda sou capaz de também agradecer-te por tudo o que fizestes por mim, quando de ti eu precisei. Ou mesmo de muitas vezes fazeres todas as coisas ao teu favor. Mas agradeço também por ter usado-me à sua própria maneira e condições, com todas as soluções pra ti, enquanto se minha vida estivesse desmoronando, ou morrendo, você, nem ligava. Obrigada por ter sido a "parte mais importante da amizade" - ou pelo menos, ter considerado-se de tal forma -, a parte mais suja, pois sabia que eu sempre iria jogar limpo. Você me fez crescer, mas não é por isso que dessa vez não vou te ouvir, nem mesmo dar-te um conselho também. Não espero que você ententa. É problema seu. Se vira.
Aliás, tu é o tipo de pessoa que nunca vai aprender a se virar, sempre haverá alguém ali, não pra você, porque você nunca vai aceitar essa pessoa. Seja ela quem for. Mas ela vai estar ali. Vai estar ali sempre esperando mais, ou pelo menos, alguma coisa de você. Mas você não vai retribuir, você não tá nem aí. Pra ti, a obrigação da pessoa é estar aí pra ti. Mas ela vai resolver teu problema. Esse único que tu vê, sim. O resto, o mais essencial, é invisível aos teus olhos, e tu nunca vai perceber. Mas essa pessoa não sou mais eu. Nunca será alguém assim pra sempre pra você. É perceptível pra quem quer ver. Apenas veja quantas pessoas já fizeram isso por ti. Mas teus problemas não irão findar-se, enquanto isso não acontecer e enquanto tu for assim, insistente em não ver.
Claro que não falei isso, também não vou falar, não cabe à mim isso.
Apenas desligo o telefone. Inclusive o tiro da tomada. Volto para um banho demorado, e dessa vez relaxante. Me jogo ao chão da sacada, recostada na parede. Dessa vez, o sol realmente se põe, com classe digna de um pôr-do-sol. Acendo um cigarro, e um incenso para dar um clima diferente na casa, trocando os ares. Ligo na vitrola o velho blues e me agarro na garrafa de vinho. E sem essa de ressaca moral.

And so it is.

Só o velho blues rolando na vitrola. Dessa vez, sentada no degrau para a sacada, vendo o que eu quero, não o que há. O sol tá se pondo, sim. Mas tá se pondo à minha maneira. Na real de qualquer um, apenas um céu nublado, sem graça. Um engarrafamento infernal e louco, de quem só quer chegar em casa logo, depois de um dia desgastante [ou não] no trabalho. Buzinas e sons entorpecedores. Para mim, o trânsito já não é caótico, pois ele não existe. As pessoas atravessam a pé esse cruzamento. Lá no fundo há colinas, um sol se pondo, deixando o céu rosa-alaranjado. Hpa dois helicópteros sobrevoando a área. E aqui, alguns cigarros no chão, meu chão se esfregando no meu violão, e a taça de vinho não terminada.
No fim das contas, a noite fica gostosa. Acabo por ir caminhas na praia, por horas. A areia entre meus dedos, e pinicando nas minhas pernas, devido à ventania, traz-me memórias de coisas que eu nem sei se um dia vivi. É mais fácil atirar-se na areia, tratando-a como tempo e deixar tudo de lado. Mas amanhece, talvez o nascer do sol por lá faça-me relaxar. Não sei se tenho muitas sensações. Amechece e eu ainda estou na praia. Chego em casa, rumo a um banho. E mais um dia. Telefone tocando, celular na mesma. É terça-feira, você tem que trabalhar.
Chegando na hora do almoço, com cara de quem tá com sarampo, o cheve até preocupado. Estou bem. Tanto faz. É mais um dia - que te causa um surto interno - naquela repartição. Ninguém tá lá realmente para trabalhar, a menos que, aquela seja a repartição da vida alheia, e eu não tenha percebido ao me candidatar à vaga.
A propósito, quando chego em casa, o telefone tocava. Tocava loucamente, convidando-me a atendê-lo. Deixo tocar. Só quero tomar um banho e relaxar. O mundo hoje pode explodir.
À menos que o telefone continue tocando desesperadamente nos próximos vinte minutos, enquanto você tenta relaxar no seu momento mas íntimo, te estressando mais um pouco, com a resistência de quem chama, te aclamando para que atenda.
Enrolo-me na toalha e atendo aquela porcaria.

[E por aqui, findo a primeira parte. Não quero que tenha muita ligação com a segunda. É outra história.]

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Só.

"Estar só vai além do movimento externo a nós, com este "só" é mais fácil de lidar. Mas quando o só é estar com a própria solidão escolhida, aí sim, é necessário responsabilidade e talento para ser dois ou mais, pois a solidão é um outro corpo dentro de nós."

Clarice Lispector.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Whatever [parte III]

Acordei cedo, após uma tremenda e gostosa noite. A moça ainda estava deitada, deixei. Levantei, fiz um café bem forte e bebi. Um pouco de cafeína é o melhor jeito de manter-se em pé. Enquanto bebia, compenetrado, apenas olhava para a fora através da janela da cozinha. Vejo o reflexo, apenas o reflexo da mulher - enrolada em um lençol - com quem eu havia passado a noite. Cabelos negros até o pescoço, pele branca, muito branca, o que em sã consciência, achei muito atraente. Ela havia pego um de meus cigarros e estava ali, escorada sensualmente na porta. Sua maquiagem estava borrada, seus cabelos despenteados. Apenas uma mão segurava o lençol em seu corpo, pelos seus seios. Estava chovendo, mas estava quente, muito quente. Ela disse que não iria embora com chuva e iria esperar o horário de seu compromisso.
-Tudo bem para você?
-Tudo... claro. - respondi.
Agora estou aqui, com uma mulher sexy em meu banheiro, cheio de tesão, terminando minha terceira xícara de café, e apesar de todo o tesão, sem vontade nenhuma de transar. Óbvio que o problema não é ela. Ela é gostosa. Pernas roliças, curvas bem feitas, seios proporcionais, e cheia de tesão também.
Me jogo na cama, enquanto ela se ajeita no banheiro. Ela é fantástica na cama, ainda lembro dessa noite.
Detalho tanto as mulheres, pois esta é a parte de relacionamentos da minha vida. Desde que deixei minha noiva, não tive mais nenhum relacionamento sério ou duradouro. Não tenho muita certeza, mas acho que é por opção. Mas eu não abro-me a ninguém. Ninguém pode dizer que me conhece. E mesmo que eu me abrisse, falasse o que passa por minha cabeça, cada profundidade de meu ser, duvido muito que teria alguma coisa mais séria com alguém. Não sei exatamente se preciso disso. Sinto-me bem com a vida incondicional que eu tenho tido.
Acabei por dormir meio a tantos pensamentos. A noite já caiu, a mulher já foi embora há algum tempo. De certa forma, não sinto muita falta desse tal sexo. Deixou um bilhete sobre a mesa da czinha, com seu telefone e um "me ligue". Lá, mais um telefone, para ser substituto. Asfixio o sexo meio a tudo o que acontece dentro de mim.
Vou tomar um café.

Whatever [parte II]

E sei exatamente como é se sentir velho. Tou atirado sobre esse sofá há dias, e tudo está virando rotina. Meu gato acaba de vomitar ao lado da televisão. Talvez ele não coma nada há tento tempo quanto eu. Pobre bixo. O uísque, a vodca, e a cerveja já terminaram. Só há copos e cigarros aqui na frente. Devo ter dormido pelo menos umas quinze horas e me sinto cansado e envelhecido. Apesar de o banheiro estar com cheiro de vômito, não lembro de ter vomitado. Passo um desinfetante, tomo um banho. Enquanto a áua corre sobre meu corpo - posso até sentir um tal desconforto. Um engano absurdo.Nada mais é intenso. Nem o tempo. Mas ele não pára. Não soube dar apenas os primeiros passos. Ele corre, como se precisasse fugir, e de um refúgio. - sinto meu cansaço renovar-se, o tempo passando e a velhice se instalando. Enxugo-me e nesse espaço para mim, o reflexo surge no espelho, por entre vapores da água que ainda circulam pelo banheiro. Desembaço o vidro do espelho com as mãos e a toalha atiro ao chão. Toda essa "carcaça" mudou, não é mais a mesma de um tempo atrás. Não tenho certeza de qual prefito. Estou mais velho, talvez mais usado, ou terminado. O corpo de um tempo atrás era mais puro, pele lisa e jovem. Mas não pertencia ao mesmo homem. A este.
O telefone está tocando, são meus amigos. Há um show local esta noite, velhos amigos. Tanto faz uma saída ou outra. Talvez seria bom abandonar por uma noite este apartamento. Está largado às traças mesmo comigo aqui.
...
O show foi bom, muito rock, rock das antigas. Estávamos numa galera enorme, uma pá de gente que eu não via há anos. Acabei conversando por horas com um baita parceiro meu, baterista de uma banda da qual já fiz parte, em um barzinho após o show - o cara contou-me histórias, muitas histórias, inclusive sobre como sua vida mudou - quem sabe algum dia penso em contá-las aqui.
Minha vida não mudou muito desde que abandonei a banda, e não temos mais convivido muito. Apenas passei por algumas experiências, que tornaram-me um homem mais maduro. Continuo vivendo como mais ou menos, uns dez anos atrás - até chegarem algumas mulheres à nossa mesa.

domingo, 16 de novembro de 2008

Whatever

Na conformidade de cada segundo "wasted", sem noção do que se considera tempo -da demora de tal- o ócio corrói-me em minhas veias. Toda a circulação sangüínea não é mais a mesma, e intensa. Resolvo finalmente, jogar este violão de lado, levantar-me deste velho sofá e desligar a droga da televisão. Antigamente as coisas eram melhores. Pago mensalmente minha televisão por assinatura, com direito a mais de duzentos canais. Nenhum sequer que faça-me sentir algum apreço por isso. Tanto faz também, se quer saber. Pego meu sobre tudo, enrolo o cachecol sobre o pescoço e vou à procura de uma noite um pouco menos depreciante.
Enfim, mízera quarta-feira. Logo em frente ao prédio, somente algumas putas profissionais marcando seus pontos, mortas de frio, sob minissaias e minishorts, blusinhas decotadas. Belos seios, aliás. Não preciso disto agora. Quem sabe outra hora.
Já há filas em algumas danceterias, muita canabis e algumas pastilhas coloridas. São apenas crianças. Divirtam-se.
Olho para essa cidade iluminada. Outdoors, todos os tipos de propaganda, de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Em edifícios. Edífícios esses, cada vez maiores, pelos arranha-céus. Isso tudo já foi apenas um mízero monte de natureza. Matos, plantas, folhas.
Tanto faz também, não vou mudar. Não tou aqui pra isso. Entro na loja de conveniência - até hoje nunca descobri o motivo, mas essas pequenas lojinhas sempre me interessaram, me pareceram legais, muito mais convidativas e interessantes que qualquer outro hiper mega supermercado. - compro outra carteira de cigarro, enquanto fumo o último que tinha. Tá frio, tá realmente muito frio, mas devo admitir que isso relaxa, acalma e excita-me. Sigo andando, em cada beco há gente apanhando, agiotas, ou mesmo alguns caras fazendo putas trabalharem. E acredite, há becos por aqui.
Faz tanto frio, que já não sinto meus dedos ou lábios, é difícil controlar o cigarro. Todo movimento é intenso. Não quero voltar para casa esta noite, simplesmente quero amanhecer. Amanhecer mais uma noite, jogado à noite na rua. Sinto-me bem. E confortado. No meu lugar, fazendo o que pertence-me. Ou, ao menos, o que eu quero.
Entro naquela cafeteria 70's vazia, escolho algo do meu agrado na jukebox e sento-me na mesa ao lado da mesma. Dizem que café faz bem à saúde. Dane-se a saúde. Já bebeu café fumando cigarros? É aquele momento.
A garçonete é realmente muito atraente. Loura, cabelos ondulados aos ombros, seios naturais e firmes. A pele tem aquela textura de um pêssego. Não a toquei, mas esta é daquelas que você nota de longe. A cinturinha fina e delicada. Nem magra, nem gorda, sensual. A sua delicadeza e sutileza ao servir, e seu rebolado ao retornar deixam qualquer homem, por mais que hostil, maluco.
E deixo a noite esvairar-se por entre xícaras e alguns cigarros - ok, estou na terceira carteira - tal qual minha vontade. Horas surtando em pensamentos, horas somente com a música entrando e saindo de meus ouvidos. Já não sei quantas xícaras de café foram, mas sinto-me intenso. Intenso por completo. Minhas mãos tremem, mas eu não sinto vontade de parar. O sol daqui a pouco nascerá, mas é a indiferença que torna-me assim. Não preciso de nada para fazer, não há nada para ser feito. E assim, termino mais uma noite. Os olhos da garçonete, seu belo corpo e curvas, já me atraíram, e já se foram há algumas horas, com o fim de seu expediente.
Entre tanta intensidade, tremedeira, e confesso, devem estar pelo menos uns dez graus negativos, mas está escorrendo suor de minha face e pescoço. Estou realmente intenso, tomando rumo para casa. A cidade também está intensa. Todo o movimento de carros e pessoas. Pessoas rotinadas. Pessoas que levam a vida que nunca quis mas já levei.
Dois quarteirões antes de casa, num daqueles becos, gemidos. Gemidos femininos, naturais por lá. Apenas bato o olho. Uma das duas louras naquele beco, a bela garçonete.
Chego em casa, atiro-me no velho sofá novamente. Ligo a televisão, e mais um dia finda-se. Adormeço com a luz solar insistente em ratear em meus olhos, e com algum canal musical na televisão. Tanto faz também.