Há aqueles dias em que a cabeça parece tão cheia, tanta coisa para liberar, tanta coisa pra falar, e aquela vontade de relaxar. Apenas isso. E quanto mais quer libertar tudo que há em tua cabeça, mais tudo refugia-se de ti.Talvez este momento já tenha passado. Então, peço-te que entre, e sente-te no sofá como antigamente.
Muito tempo passou, muita coisa aconteceu. Mas nada mudou, entre nós, desde que tu te fostes. Sim, pode ficar à vontade, se quiser, deite, te estique. Sabe que pode sentir-se em casa. Espero que não te incomode se eu acender um cigarro.
Agora que tudo se acalmou, acho que pode ser hora de uma reconciliação e reorganização dos sentimentos. Tudo está voltando ao seu devido lugar. A rotina findou-se, e talvez agora eu seja capaz de conciliar alguma coisa entre nós. Ai, Deus, como eu era uma pessoa incapaz. Por que eu me tornei alguém tão incapaz de amar-te como tu me amavas? Eu joguei todo teu amor ali às margens de um bueiro. Desculpa, eu não estava pronta pra ti, para sentir o que tu sentias, e retribuir-te toda aquela sensação que tu me causava. Foi a melhor que eu já senti em toda a minha vida.
Mas hoje eu compreendo quanto sentimento tu guardou, e incrivelmente tu reservou-o pra mais tarde. Como sabias que seria útil mais tarde? Não vou apelar para a modéstia agora, não preciso dela. Sei que se tu tá aqui, à minha frente, nesse sofá, tu não veio em vão. Sei que tu tá aqui por que me quer, por que ainda há o desejo fulminante por trás desses teus olhos castanhos e por baixo da tua pele branquinha, arrepiada pelo frio. O velho moletom já atirou sobre o braço do sofá.
Eu gostava de sentir o que eu sentia. Resolvi parar de querer sentir porque ainda não era tão intenso, como eu gostaria que fosse. E eu não podia agir assim com você. Eu sabia que o tempo tornaria as coisas intensas, como elas eram no início. Todo aquele desejo, a libido no ar. A vontade e a saudade. Era amor, e não era confusão de amizade.
O que eu mais gostava, era poder olhar dentro dos teus profundos olhos castanhos-mel, e não precisar falar nada, por que tu arrancava as palavras dos meus olhos. Eu sentia todo o conforto e segurança do mundo ao teu lado, no teu abraço mais acalentoso. E todas as nossas pequenas brincadeiras, nossos carinhos, nossos amores. No início era tudo tão intenso, as despedidas, os reencontros. Ou mesmo nas vezes em que a gente acampava. Aliás amor, lembra do nosso primeiro acampamento? Nossa primeira experiência em solo natural, em contato com a natureza, discutindo pra armar a barrcaca, as confusões no meio da noite.
Adorava também o seu jeito de dormir, e o jeito como tu me acordava pelas manhãs em que dormíamos juntos, e depois ainda ia pra cozinha fazer um café.
Pouca coisa mudou, mas creio que hoje consigo ter um pouco mais de amargura dentro de mim. Mas ao certo, sei que estou pronta para capacitar todo o amor por ti. Tenho vivido um pouco mais ultimamente, em todos os sentidos.
E agora, o jeito em que tu me olha enquanto me abraças, e eu sinto tuas lágrimas chegando aos meus dedos, estendidos ao teu rosto.
Enfim, novamente, na cama, os velhos amantes de sempre.
Mas meu bem, meus olhos vermelhos não negam o que foi passado. O conforto e o calor do teu corpo é o que me agrada, o que me intensifica. E é corpo a corpo que estaremos de hoje em diante, como éramos antes.
A velha história clichê de tudo o que acontece no passado que não se esquece. Mas tu, velho amigo, sempre será o que és pra mim. Velho amigo, velhos amantes.
A cada segundo mais confortante e delirante, um segundo a menos contigo. Apenas vista tua roupa, junte teu moletom lá na sala. Me olha uma última vez, pega tuas chaves, e te vá.
A perdição e o delírio tomarão conta de nós. Até a próxima.

0 comentários:
Postar um comentário